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domingo, 26 de agosto de 2012

Registros de vida: Morte e vida Luciana

Força


Farmacêutica, mestra, doutora, pós-doutoranda. Nada demais, não fosse Luciana Scotti tetraplégica e muda. Conheça essa história de superação 


Wagner Sarmento 


CABEDELO (PB) – Em um instante, tudo mudou. Levou a vida que corria solta, sem grilhões. Levou a voz, o movimento dos braços, a liberdade das pernas, elas que a embalavam na dança, o passatempo favorito. Chegou sem aviso prévio, tão inesperado quanto inexorável. Luciana Scotti tinha 22 anos quando sofreu uma trombose cerebral e apagou. Morreu ali. Só foi acordar dois meses depois. Nasceu de novo, como ela mesma diz. Tetraplégica e muda, parecia sentenciada a uma vida improdutiva, semivegetativa. Mas fugiu à autocondenação. Deu um bico nas dificuldades e reescreveu o significado da palavra superação. Luciana, 40 anos, graduada em farmácia, mestra, doutora, cursando o pós-doutorado, autora de três livros, autodidata em três idiomas e senhora do próprio destino. O mergulho na história de Lu, como gosta de ser chamada, é assim: um curso intensivo de vida. 



Luciana Scotti utiliza tábua de letras e números feita pela família para se comunicar • • • •


Lu vivia na capital paulista desde criança e era recém-formada pela Universidade de São Paulo (USP) quando teve o AVC isquêmico, no dia 2 de maio de 1994. Escovava os dentes e de repente sentiu uma tontura diferente das outras. Caiu, sofreu uma convulsão, entrou em coma, fez duas cirurgias no cérebro e só saiu do hospital três meses depois, de fraldas e se alimentando por uma sonda. 

A alta médica nem de longe acenava que a Luciana de antes estava de volta. Nunca mais aquela retornaria, na verdade. Lu perdeu emprego, namorado, amigos, o corpo, a rotina e tudo mais. Era preciso arrancar de dentro uma nova mulher. Não foi fácil. 


"Vivi três anos sobre uma cama hospitalar. Chorei, revivi todo meu passado, procurei culpados e pensei: morri, acabou tudo."


Entre o fardo das limitações e a dádiva da vida, contudo, ela escolheu o segundo. Da antiga Luciana, restaram os olhos, um sorriso teimoso e o movimento do dedo médio esquerdo, resquício sagrado, canal que a comunica com o mundo. O baque virou inspiração e Lu escreveu, a toques miúdos no teclado, o primeiro livro, Sem asas ao amanhecer (Nome da Rosa Editora, 1998), hoje na 11ª edição. Foi o primeiro filho de uma vida que seria pródiga, na literatura e na academia. 

A doce sinfonia de seu silêncio (Nome da Rosa, 1999) foi lançado em seguida. Mas era pouco. Luciana queria mais. Podia mais. Aí voltou a estudar. Fez mestrado em envelhecimento cutâneo e a eficácia de cosméticos na USP, publicou um livro científico sobre o assunto e terminou, em 2006, doutorado em modelagem molecular. 

Saltou da cama dos acomodados e, dedo em riste, aprendeu a escrever em três idiomas: inglês, espanhol e italiano. Ganhou o mundo. Participou de mais de 30 congressos, conquistou prêmios, cursou três anos de pós-doutorado na USP e retornou à terra natal em 2009. Faz pós-doutorado na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e mora no bairro de Intermares, em Cabedelo, cidade vizinha a João Pessoa. Tem artigos publicados mundo afora e é revisora de sete revistas científicas. 

Mas a maior sabedoria dela é a que não se mede em títulos e diplomas. Foi na escola da vida que Lu aprendeu que o lema “não desistir jamais”, que para tanta gente é mero clichê, seria sua filosofia diária. “Não foi uma mudança o que aconteceu na minha vida; foi começar do zero mesmo. Quase tudo que eu tinha antes do AVC não tenho mais. Para mim é outra vida. Foi recomeçar, tetraplégica e muda. Difícil, triste, doloroso, mas não impossível”, ensina. 




O drama não sepultou a mulher que existe nela. Pelo contrário. Lu noivou duas vezes depois do problema de saúde e usa a internet para se relacionar. Só não quer saber de casamento. “O bom é namorar e tchau”, diverte-se. 

Recebeu a reportagem em sua casa e caprichou na produção. Luzes no cabelo, maquiagem, batom, joias, blusa florida semitransparente e um brilho nos olhos que contagia. A mãe, Lélia de Medeiros Scotti, simplifica: “Não pense que isso é porque vocês vieram não, viu? É sempre assim. Esta menina é uma perua”. A gargalhada é geral. Compensa a vida. 

Pele bronzeada, esta apaixonada pelo mar não dispensa um banho de sol e pratica exercícios, o que lhe permite uma postura ereta, vívida. Foi, aliás, o fitness que a permitiu retomar um pouco do movimento dos membros superiores. Em seu quarto, cama e computador dividem espaço com uma miniacademia. Lu recebe a ajuda da mãe e de uma pessoa contratada pela família. “Adoro tomar sol. É meu vício. Vim morar no lugar certo. Sou paraibana, mas vivi em São Paulo desde bebê. Nosso Nordeste é muito ensolarado, com praias lindas, um vento gostoso e céu azul. Amo isso”, suspira. No supermercado, cerveja e vodca são compras obrigatórias. 

Uma saudade? Dançar. “Eu adorava. Acho que dançava bem. Sei que existe dança com cadeirantes, mas é como água e vinho. Não tem comparação”, brinca. Mesmo assim, vez em quando, se pega dançando sozinha, numa sinfonia que só ela é capaz de entender. 

Lu não dispõe de nenhuma superestrutura para produzir conhecimento. Óculos e computador lhe bastam. A rotina é cansativa, mas prazerosa: ler, escrever, revisar. Pausas pontuais aqui e acolá, o resto é trabalho. 

 Não raro, põe-se diante do monitor às 7h30 e, sem perceber, só vai se deitar à 1h. Eventualmente aparece na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Nos finais de semana, ainda dedica cinco horas ao trabalho. “Amo o que faço”, resume. 

Seu currículo dispensa apresentações. Somente este ano, ela teve sete artigos científicos publicados e espera concluir mais três ainda em 2012. Um feito difícil até mesmo para uma pessoa sem limitações físicas. Mas tanta sabedoria se esvai nas valas do preconceito. Nascida em um país que não sabe olhar pelos portadores de necessidades especiais, Luciana está imobilizada mesmo é pelo descaso do poder público, pelas portas fechadas de uma sociedade excludente. “Você não acha uma injustiça social e uma burrice não aproveitarem minha mão de obra especializada? Muitos colegas com currículo e produtividade inferior prestam concurso e passam. Eu nem posso concorrer, porque não falo. Pensam apenas em dar aulas nas faculdades. Mas poderia haver vagas para pesquisadores, né?”, lamenta. 

O sonho que Lu alimenta a cada dia é conseguir um emprego na universidade. Mas, à medida que o tempo passa, a esperança muda de cor. Vira frustração. “Não tenho perspectiva”, diz, apontando letra por letra numa tábua de madeira que a família confeccionou, dividida por consoantes, vogais, números e sinais de pontuação – a primeira foi rabiscada num guardanapo ainda no hospital. As palavras ganham a entonação do choro. Dela e da mãe. De uma gente cansada de uma luta vã. É a decepção de um talento desperdiçado. “Minha cultura resultará inútil. Vou estudando, fazendo pesquisas, participando de congressos, mas já tenho anos de pós-doutorado e vai chegar o momento em que vou ter que parar, pois existe um limite”, desabafa. 

Exemplo de redenção, Luciana não se entrega. Faz questão de empunhar os únicso dedo que consegue mexer para explicar como conseguiu vencer na vida. A lição, por mais árdua que possa parecer, é simples: “Você pode chorar a vida inteira por um romance acabado, por uma doença, por sua tetraplegia, ou parar de chorar e começar viver. A opção é sua”. Lu escolheu viver. Indagada sobre que palavra seria capaz de defini-la, ela não titubeou em responder: “Força”. É impossível discordar.



Fonte: 

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/mundo/brasil/noticia/2012/08/11/morte-e-vida-luciana-52303.php

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